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domingo, março 13, 2011

TABACARIA



      TABACARIA

    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

    Janelas do meu quarto,
    Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
    (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
    Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
    Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
    Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
    Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
    Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
    Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

    Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
    Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
    E não tivesse mais irmandade com as coisas
    Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
    A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
    De dentro da minha cabeça,
    E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

    Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
    Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
    À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
    E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

    Falhei em tudo.
    Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
    A aprendizagem que me deram,
    Desci dela pela janela das traseiras da casa.
    Fui até ao campo com grandes propósitos.
    Mas lá encontrei só ervas e árvores,
    E quando havia gente era igual à outra.
    Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

    Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
    Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
    E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
    Gênio? Neste momento
    Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
    E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
    Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
    Não, não creio em mim.
    Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
    Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
    Não, nem em mim...
    Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
    Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
    Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
    Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
    E quem sabe se realizáveis,
    Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
    O mundo é para quem nasce para o conquistar
    E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
    Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
    Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
    Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
    Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
    Ainda que não more nela;
    Serei sempre o que não nasceu para isso;
    Serei sempre só o que tinha qualidades;
    Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
    E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
    E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
    Crer em mim? Não, nem em nada.
    Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
    O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
    E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
    Escravos cardíacos das estrelas,
    Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
    Mas acordamos e ele é opaco,
    Levantamo-nos e ele é alheio,
    Saímos de casa e ele é a terra inteira,
    Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

    (Come chocolates, pequena;
    Come chocolates!
    Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
    Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
    Come, pequena suja, come!
    Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
    Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
    Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

    Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
    A caligrafia rápida destes versos,
    Pórtico partido para o Impossível.
    Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
    Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
    A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
    E fico em casa sem camisa.

    (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
    Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
    Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
    Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
    Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
    Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
    Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
    Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
    Meu coração é um balde despejado.
    Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
    A mim mesmo e não encontro nada.
    Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
    Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
    Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
    Vejo os cães que também existem,
    E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
    E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

    Vivi, estudei, amei e até cri,
    E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
    Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
    E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
    (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
    Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
    E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

    Fiz de mim o que não soube
    E o que podia fazer de mim não o fiz.
    O dominó que vesti era errado.
    Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
    Quando quis tirar a máscara,
    Estava pegada à cara.
    Quando a tirei e me vi ao espelho,
    Já tinha envelhecido.
    Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
    Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
    Como um cão tolerado pela gerência
    Por ser inofensivo
    E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

    Essência musical dos meus versos inúteis,
    Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
    E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
    Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
    Como um tapete em que um bêbado tropeça
    Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

    Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

    Sempre uma coisa defronte da outra,
    Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
    Sempre o impossível tão estúpido como o real,
    Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
    Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

    Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
    E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
    Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
    E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

    Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
    E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
    Sigo o fumo como uma rota própria,
    E gozo, num momento sensitivo e competente,
    A libertação de todas as especulações
    E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

    Depois deito-me para trás na cadeira
    E continuo fumando.
    Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

    (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
    Talvez fosse feliz.)
    Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
    O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
    Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
    (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
    Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
    Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
    Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

    Álvaro de Campos, 15-1-1928

sábado, julho 03, 2010

POESIA


Abri uma frecha na porta do tempo,
dei um passo inseguro meio a medo
e espreitei por uma janela desconhecida
que, a cada lufada de vento,
me fazia entregar ao desconhecido, em segredo,
em muito mais do que aquilo que queria.
Recuei assustada pelo que sentia,
escondi-me entre o som de um olhar
por trás das mãos que tapavam meu querer...
Ergui-me, debrucei-me sobre o desejo que me sabia
e numa cortina de luz deixei o sol adivinhar
tudo o que eu já sabia sem me aperceber...

Abri uma frecha na porta do tempo...


Marta M.

domingo, março 21, 2010

DIA INTERNACIONAL DA POESIA




Amar

Eu quero amar, amar perdidamente!Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Florbela Espanca

segunda-feira, janeiro 25, 2010

POESIA


São outras as paisagens quando alguém
as vê pelas janelas do seu próprio coração ou quando
com esse coração
a própria estrada está comprometida.



luís miguel nava
poesia completa (1979-1994)
rebentação

segunda-feira, dezembro 21, 2009

POEMA RECEBIDO

contexto: visita ao Hospital Magalhães de Lemos

Para quem não sabe, é um Hospital que aposta claramente na plena integração social dos indivíduos com problemas mentais, desenvolve actividades de ligação com os Centros de Saúde e Hospitais Gerais, bem como de articulação com as estruturas de segurança social, públicas e privadas, e com as autarquias da área assistencial, promovendo actualmente várias iniciativas de dinamização de Unidades Residenciais e de Emprego Social para doentes com deficiente retaguarda socio-familiar e profissional.


Continua tudo igual.
Os loucos andam normais
Os normais andam loucos.
O tempo passa
E o natal abraça.
Está tudo igual.
É tudo muito trivial
E o natal, ESPECIAL,
Passa depressa,
E, torna-se NORMAL.
Como o sinal:
Verde, amarelo, encarnado
As cores do natal!
Quão rápido ele se vai em
Bolas, fitas, pinhas;
Corridas aos presentes!!!
Laços, velas, pingentes...
Tão coloridos e QUENTES
Que até parece mal,
Ser-se pobre e ser-se triste,
Ser-se sujo, ser-se indigente,

Ou apenas estar doente.
Esse natal, já ninguém sente.

Porque até parece mal,
porque se chama natal,
Não sorrir e ser FELIZ!
Num natal de NEVE - quente.

Vem salvador e aquece
Com o teu AMOR,
Esta alma de sobrevivente
"Libertai-me deste torpor."

Poema enviado por: Joana Cruz

sábado, setembro 12, 2009

POESIA ERÓTICA


Como são belos os teus seios!
Foram feitos
à medida das minhas mãos.
Pousa-os
na minha boca e conta-me a tua história.
Não tens
história?
Não tens noite nem vazio nem praia
branca?
Fala-me então do sol, da migração dos pássaros,
da mansidão
das estrelas
- fala-me de ti
antes de possuíres
um nome, uma história.
Sim
em qualquer parte lançaremos os nossos corpos na relva;
alfaias
efémeras; armas exíguas ardidas na guerra.
Como são belos os teus seios!
Trémulas
palavras.
Deixa que neles eu me queime
como quem
se deita num rio.
Sinto
a terra mover-se.
Iluminas
as águas e as estrelas.
O percurso
é longo.
O silêncio montanhoso.
Debruço-me
na tua solidão.

Poema de Casimiro de Brito
in: “69 poemas de amor”

Casimiro de Brito nasceu no Algarve há 71 anos. Prosseguiu os seus estudos em Londres onde viveu até 1968. Depois de alguns anos na Alemanha, acabou por se fixar em Portugal onde, depois de exercer várias profissões, acabou por dedicar todo o seu tempo à literatura.
Tem, publicados mais de 40 livros. Esteve ligado ao movimento “Poesia 61”, um dos mais importantes da poesia portuguesa do sec. XX; participou em inúmeros recitais, festivais de poesia, congressos de escritores, conferências, um pouco por todo o mundo.

Tem a sua obra traduzida para mais de 24 línguas, dedicando-se também á tradução para português, sobretudo do japonês.

Em 2006, foi nomeado Embaixador Mundial da Paz, no âmbito da Embaixada Mundial da Paz, sediada em Genebra.

segunda-feira, agosto 10, 2009

POESIA

Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque nasceu em Benguela em 1930 e morreu em Cambambe 32 anos depois. Alda Lara destacou-se como poetisa e declamadora durante a sua passagem por Portugal (Lisboa e Coimbra) onde formou-se em medicina. O marido prometeu publicar a obra de Alda Lara quando ela prematuramente morreu, da obra fazia parte este poema;

Testamento

À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...
E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...
Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...
Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...

Alda Lara in "Poemas"

domingo, agosto 02, 2009

ALMADA

Pelas pedras da calçada,

Percorro as ruas da cidade,

Da cidade da minha vida.

Vivo nela

E sem ela não consigo estar.

A saudade aperta

E a vontade de a sentir fala mais alto.

Volto sempre à cidade que conheço

E que se lembra de mim.

Olhá-la é recordar.

Todos os cantos têm memórias

E histórias para contar.

Pelas ruas da cidade,

Reencontro-me

E reconheço caras e passados

Com futuros por descobrir.

As cores, o ritmo,

A vontade de viver e sorrir

Prosseguem pelas ruas da minha cidade,

Brilhante à luz do sol,

Serena sob a lua,

Banhada pelo Tejo.

Seu nome... Almada.


autor: Alexandra Mendonça

sexta-feira, julho 31, 2009

DOZE HORAS NA VIDA DE UM MENDIGO


O mendigo
estendeu suas mão vazias
na penumbra do dia...

Mastigou gestos de indiferença
encheu seus olhos de movimento diurno
e descansou à sombra da esquina do seu destino.

Na penumbra da noite
o mendigo

recolheu suas mãos

— cheias de coisa alguma!



João Baptista Rodrigues nasceu na Ilha de São Vicente, em Cabo Verde, em 9/11/1931.

Publicou: Os contos Monte Verde-Cara, O Casamento de Joaquim Dadana (noveleta), Caminhos Agrestes (contos), O Jardim dos Rubros Cardeais e Pérolas do Sertão (Poesia).

quarta-feira, julho 29, 2009

POESIA


Se o mundo não tivesse palavras a palavra do mar, com toda a sua paixão, bastava. Não lhe falta nada: nem o enigma nem a obsessão. Entregue ao seu ofício de grande hospitaleiro o mar é um animal que se refaz em cada momento. O amor também. Um mar de poucas palavras.

Casimiro de Brito

domingo, julho 26, 2009

PENSAMENTO


É negro
O fundo
Da tela
Onde escrevo

O que escrevo?
Coisas simples

Coisas pequenas

Que me vão saindo

Do pensamento

Umas serão amargas
Outras serão doces

Terão o gosto que tiverem

Saberão ao que quiserem...

Escrevo-as como as sinto
Com a singeleza das letras

Que encontro

Ao acaso

Por onde passo

Nas esquinas dos dias

Quando escrevo?

Não tenho horas marcadas
Nem compromissos que me prendam

Tenho momentos...

Pode ser hoje
Pode ser agora

Mais logo

Ou amanhã

Porque escrevo?
Talvez seja pela necessidade

De conjugar os verbos

Que outros

Chamarão de versos

Com ou sem rimas

Pouco importa

Desde que me façam sentido

Negro

É o fundo
Da tela
Onde escrevo

Absorvido no meu pequeno mundo

E embalado pelo sossego

Do meu silêncio...


autor desconhecido

domingo, julho 19, 2009

COMO UM RISCO DE FOGO NA NOITE

Lembro-me bem do seu olhar. Ele atravessa ainda a minha alma. Como um risco de fogo na noite. Lembro-me bem do seu olhar. (...) Deve haver ilhas lá para o sul das coisas onde sofrer seja uma coisa mais suave. Onde viver custe menos ao pensamento, e onde a gente possa fechar os olhos e adormecer ao sol e acordar sem ter que pensar em responsabilidades sociais nem no dia do mês ou da semana que é hoje. Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender, um coração exageradamente espontâneo que sente tudo o que eu sonho como se fosse real, que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta. Canções tristes, como as ruas estreitas quando chove.

Álvaro de Campos


quinta-feira, julho 16, 2009

METADE


Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio

que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
porque metade de mim é o que eu grito
mas a outra metade é silêncio
.
Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza

que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade
.
Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor

apenas respeitadas como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos
porque metade de mim é o que ouço
mas a outra metade é o que calo
.
Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço
e que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
mas a outra metade é um vulcão
.
Que o medo da solidão se afaste

e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflicta em meu rosto num doce sorriso
que eu me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei
.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o teu silêncio me fale cada vez mais
porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço
.
Que a arte nos aponte uma resposta
mesmo que ela não saiba

e que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
porque metade de mim é plateia
e a outra metade é canção
.
E que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também
.

Oswaldo Montenegro

domingo, julho 05, 2009

POESIA


Quando partires, às cegas,
pelas veias da cidade
,
encontrarás quem de mim
diga que estou vivo
, ou o contrário.
E quando o fizeres, ver-me-ás, sozinho,
de rosto estampado nos quadros da parede,
com as pálpebras cerradas sobre o meu peito.
Escreverei cartas
como se te desenhasse a cada palavra
,
o vento voará por mim sem que o impeça
,
e tocar-me-ei pela noite dentro
,
imaginando que estás por aqui
.
De hoje em diante,
cerro a porta do quarto para que não entres

- tenho a certeza de que te convidei, um dia, mas já não estou certo.
Apagarei cigarros em frenesim, como páginas soltas de memória
ou como lumes brandos nas copas das árvores
- imaginei tudo isto enquanto dormias,
nos teus sonhos em que o corpo era uma massa volúvel, insana e vermelha.
Hoje já é manhã
- a esta hora já acorda quem por mim não passa.
Não durmo para que
, ao chegar aonde tu estás,
possa ser uma surpresa ou desilusão

- como uma marca no peito,
como um soluço de água quando a noite cai.
Para isso estou hoje aqui, para que me entregues e para que morra.
Pela penumbra, espalhei fotografias e luas luminescentes
que olho e que gasto com a minha saliva,
como o selo desta carta.
Na minha pele ainda jaz o teu bafo quente de quando acordavas
e de quando eu te via - às escuras, nua, pelo quarto herege e quente.
De dentro dos lençóis emanava a voz que, aos nossos corpos,
se assemelhava a uma religião, a uma quase-entrega-imaterial.
E, por não te ter, me retiro para países onde o sol
se ponha e onde os olhos não me ardam
.
Para que me possa solver no meio das multidões,
onde alguém fala, onde ninguém me conhece - como uma palavra.
E em línguas estranhas me defino no livro que escreves,
dia após dia, onde te recordas, onde deixas latente quem eras
ou quem serias se, por aqui, as giestas fossem calmas
e se o teu corpo se enlevasse
- à altura do meu peito surgem marcas,
os teus dedos estão queimados
e a pele nada mais é
que um perfume mastigado
onde não estás mais
.

Sérgio Xarepe

domingo, junho 14, 2009

SONHO ACORDADO













No mundo dos sonhos

A saudade tem sabor a mar salgado

A esperança é um barco à deriva

num enorme oceano sem fim

no desejo louco de
te ter
junto de mim.

No mundo dos sonhos

Sou poeta sem o ser,

escrevo as palavras que

queria mas não te consigo dizer.

No mundo dos sonhos

Sou pintor sem saber pintar

e desenho o teu rosto em cada carta

que nunca te vou entregar.


No mundo dos sonhos

Sou amante sem ser amado,

imagino que realmente existes

enquanto sonho
acordado.



Luis Teixeira

sexta-feira, junho 05, 2009

POESIA - O CAOS DO SONHO


O Caos do Sonho

Estou deitado no sonho
não
perturbes
o caos que me constrói


Afasta a tua mão

das pálpebras molhadas

Debaixo delas
passa
a água das imagens

Gastão Cruz

domingo, maio 31, 2009

UM POUCO DE POESIA

FALA DO HOMEM NASCIDO

Venho da terra assombrada,
Do ventre de minha mãe;
Nao pretendo roubar nada,
Nem fazer mal a ninguém.

Só quero o que me é devido
Por me trazerem aqui
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.

Trago boca para comer
E olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
Tenho pressa de viver.
Com licença! Com licença!
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo
Não tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada
Solta o pano rumo ao norte;
Meu desejo é passaporte
Para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.

Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.

António Gedeão

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

POESIA




















Metade


Que a força do medo que tenho não me
impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo que acredito não me
tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito, mas
A outra metade é silêncio.

Que a música que eu ouço ao longe seja
linda, ainda que triste.
Que a mulher que eu ame seja sempre
amada, mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida e a outra
metade é saudade.

Que as palavras que eu falo não sejam
ouvidas como prece nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que
resta a um homem inundado de sentimento.
Porque metade de mim é o que eu ouço, mas a
outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora se
transforme na calma e na paz que eu mereço,
Que essa tensão que me corroí por dentro
seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso e a
outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, que o
convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflicta em meu rosto o doce
sorriso que eu me lembro de ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples
alegria para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra
metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba, e que ninguém a tente
complicar porque é preciso simplicidade
para faze-la florescer.
Porque metade de mim e' a plateia e a
outra metade, a canção.

E que minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor e
a outra metade... também.

Oswaldo Montenegro



sexta-feira, janeiro 23, 2009

A FELICIDADE EXIGE VALENTIA


'
Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes mas,
não
esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo,
e posso evitar que ela
vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios,
incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos
problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um 'não'.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo...'

FERNANDO PESSOA - 120 ANOS

enviado por: Elisabete